A história de Fábio Fernando dos Reis Silva, mais conhecido como Fabinho Reis, está profundamente enraizada na Vila Marcondes, em Carapicuíba. Sua família reside na região há aproximadamente 70 anos; seu avô foi um dos primeiros moradores e o responsável por trazer o primeiro ponto de luz para a Vila Marcondes: “Meu avô trabalhava na prefeitura de São Paulo e pediu ao Jânio Quadros para trazer energia pra cá. Foi assim que a vila começou a se iluminar”, conta.
Essa conexão de longa data com o bairro serviu de solo fértil para a criação de uma obra social que se tornou fundamental para a cidade.
A trajetória de Fabinho é marcada por provações: “Já perdi a conta de quantas vezes achei que não ia voltar. Enfrentei problemas de saúde, sofri acidentes de carro e de moto, etc. Deus me guardou de todas. Hoje sei que foi pra cumprir uma missão”, afirma. Cada obstáculo o aproximou mais da fé e da certeza de que devia retribuir com trabalho social. “Quanto mais as coisas tentavam me derrubar, mais forte eu ficava. E entendi que a força que Deus me deu não era pra guardar pra mim, era pra colocar a serviço dos outros.”
O exemplo de solidariedade veio também da mãe, Dona Maria, mulher de fé e coração aberto. “Todo começo de ano, quando a escola mandava a lista de material, minha mãe comprava o meu, o da minha irmã e montava mais dez kits iguais para crianças carentes da comunidade. E nunca dizia que era ela. Dizia que um anjo tinha deixado”, recorda. Daquela atitude singela nasceu o princípio que ele carrega até hoje: fazer o bem com excelência e respeito.
A semente da ONG nasceu de uma festa. Em meados dos anos 1990, Fabinho começou a organizar comemorações para as crianças da vizinhança no quintal da casa da mãe. “Era uma festa simples, mas com churrasco, refrigerante e brinquedo bom. Eu me vestia de Papai Noel, e até hoje faço isso”, conta. “Via o sorriso das crianças e pensava: é isso que eu quero fazer na vida.”
Com o tempo, os encontros se tornaram também espaço para conversas sobre os problemas da comunidade — falta de creche, atendimento social e oportunidades. “Foi aí que surgiu a ideia de criar uma ONG. O pessoal achava loucura. Ninguém sabia direito o que era isso. Mas eu tinha certeza de que daria certo.”
Em janeiro de 2006, nasceu oficialmente a SOS Brasil Melhor – Projeto Nosso Futuro.
A sede inicial era a garagem da mãe de Fabinho, transformada com doações e o trabalho voluntário dos vizinhos.“Cada um ajudava como podia: uns davam dez reais, outros vinham pintar, varrer, abrir o portão. Era uma corrente de fé e boa vontade.” A fundação de uma ONG é um ato de fé e determinação. Exige não apenas o coração voltado para a caridade, mas também a disciplina para criar uma estrutura capaz de perdurar. Fabinho Reis, ao fundar a ONG e, posteriormente, estruturar o projeto atual, demonstrou uma visão que ia além da assistência imediata. Ele buscou criar uma plataforma sustentável para a distribuição de apoio, formação e oportunidades para os moradores da Vila Marcondes e entorno. Uma obra social enraizada em um bairro historicamente ligado à sua família, naturalmente, assume um papel de polo aglutinador. O projeto não se limita a prover o básico; ele busca reativar a esperança e oferecer caminhos, seja através da educação, do desenvolvimento pessoal ou do apoio direto às famílias em situação de vulnerabilidade.
Cuidado e Zeladoria Como Estilo de Vida
A dedicação de Fabinho ao projeto é visceral. Ele mantém uma rotina de zeladoria minuciosa, tratando o espaço como algo que exige amor e atenção, prestando todo apoio necessário à continuidade dos trabalhos da ONG. Em uma demonstração de cuidado prático, ele relata a atenção aos detalhes: "eu vou olhando as salas se tem lâmpada queimada, se tem uma tomada solta, se tem uma cadeira com a perna quebrada". Essa mesma atenção se estende à cozinha, onde ele verifica se os armários estão etiquetados e se algo está faltando. Segundo ele, o projeto é fruto de um amor que ele carrega desde o dia em que idealizou a ONG.
Essa atenção aos detalhes técnicos – a lâmpada, a tomada, a cadeira – transcende a simples manutenção predial. Ela se torna uma metáfora para o cuidado integral com o projeto. Um ambiente bem cuidado, funcional e seguro é a primeira forma de respeito oferecida a quem o utiliza. É um recado silencioso para os assistidos de que eles merecem o melhor, e que o espaço é tratado com o mesmo carinho que seria dedicado a uma casa própria.
De um quintal para a comunidade inteira
O que começou com uma festa de bairro virou uma instituição consolidada. Hoje, a ONG atende centenas de famílias de Carapicuíba e região, somando mais de 25 mil pessoas beneficiadas ao longo dos anos. O espaço oferece creche para 107 crianças, atendimento a pessoas com autismo e síndrome de Down, grupos de convivência para idosos, apoio psicológico com mais de 20 estagiários de Psicologia, assistência social, cursos de capacitação profissional e atividades culturais e esportivas. Além disso, a organização realiza ações sociais contínuas, como a distribuição de leite, cestas básicas, cadeiras de rodas, muletas e camas hospitalares, e promove festas comunitárias, entre elas o tradicional Natal Solidário, que reúne mais de mil crianças todos os anos. “Cada uma faz uma cartinha pro Papai Noel, e nenhuma sai sem presente”, diz. “Já ouvi pai chorar e dizer: ‘você salvou o Natal da minha família’. É por isso que vale a pena.”
A Vila Marcondes, como muitas comunidades periféricas, enfrenta desafios sociais e econômicos complexos. A atuação da ONG de Fabinho Reis oferece um impacto silencioso e profundo, que se manifesta na oferta de oportunidade e na restauração da dignidade.
O projeto se estabelece como um refúgio, um porto seguro onde crianças, jovens e famílias encontram apoio que o poder público ou a escassez de recursos muitas vezes não conseguem prover. O impacto de uma obra como essa pode ser medido em estatísticas de frequência, mas seu verdadeiro valor está na transformação invisível: o jovem que descobre uma vocação em uma oficina de capacitação ou a mãe que encontra apoio e orientação.
O projeto não apenas supre necessidades materiais; ele atua como um fator de coesão social. Ao oferecer atividades, palestras e encontros, a organização incentiva o senso de comunidade, onde vizinhos se apoiam mutuamente e constroem uma rede de solidariedade. Isso eleva a autoestima do bairro e cria uma cultura de pertencimento e responsabilidade mútua, essencial para o desenvolvimento sustentável de qualquer localidade.
A Sede Própria: O Sonho do Legado Material
Para Fabinho, o legado que ele busca deixar não é apenas o do amor pelo trabalho que criou, mas que hoje pertence à comunidade. Ele expressa o desejo de que seus filhos sigam seus passos com o mesmo carinho e determinação. Contudo, há um objetivo material e estrutural que ele persegue com determinação: a sede própria da organização. Ele enxerga a aquisição do imóvel como uma forma de acabar com o aluguel, permitindo que os recursos sejam investidos no projeto. "Quando é nosso você cuida com muito mais zelo," afirma Fabinho, ressaltando que ter a posse do local permite um cuidado e um investimento que beneficiam a obra de forma permanente. Em essência, seu legado é definido por um "estilo de amor, de determinação, de carinho e de caridade também que é o que Jesus ensinou pra gente". É essa visão que move Fabinho Reis a dedicar sua vida ao crescimento e à manutenção de um espaço que ele sonhou para servir.
Instituto Caju: parceria, confiança e fortalecimento do terceiro setor
Ao falar sobre o fortalecimento das organizações sociais e os caminhos para a transformação comunitária, Fábio Reis destaca o Instituto Caju como um exemplo de parceria construída com base em confiança, valores éticos e compromisso real com o impacto social. Para ele, o relacionamento entre organizações do terceiro setor só se sustenta quando existe seriedade, transparência e, principalmente, pessoas comprometidas com a causa, e não apenas com projetos pontuais.
Segundo Fábio, o Instituto Caju representa esse modelo de atuação responsável e colaborativa. Ele relembra que a aproximação ocorreu de forma natural, a partir do reconhecimento do trabalho desenvolvido pela ONG que lidera e da identificação mútua de propósitos. Para Fábio, parcerias verdadeiras não nascem apenas de editais ou recursos financeiros, mas do entendimento de que nenhuma organização cresce sozinha.
Em sua avaliação, o Instituto Caju se diferencia por enxergar além das estruturas formais, valorizando o capital humano das instituições parceiras. Fábio enfatiza que, quando uma entidade reconhece a força da equipe, da liderança e da história construída ao longo dos anos, cria-se um ambiente propício para cooperação duradoura. Ele ressalta que, no terceiro setor, dinheiro sem confiança não sustenta projetos, e que o Instituto Caju compreende essa lógica. Outro ponto destacado é o respeito à autonomia das organizações comunitárias. Para Fábio, o Instituto Caju atua como um agente que soma, fortalece e potencializa iniciativas já existentes, sem impor modelos prontos ou desconsiderar a realidade local.
Essa postura, segundo ele, é fundamental para que as ações tenham continuidade e gerem resultados concretos na vida das pessoas atendidas.
Para Fábio Reis, o Instituto Caju simboliza uma nova forma de pensar o terceiro setor: baseada em colaboração, ética, valorização das pessoas e visão de longo prazo. Uma relação que ultrapassa o apoio pontual e se consolida como aliança estratégica em favor do desenvolvimento social e da transformação das comunidades.
O Legado de Fabinho Reis: Amor, Carinho e Caridade

Fabinho Reis na ONG SOS Brasil (Foto: Plínio M S Silva)
O legado de Fábio Fernando dos Reis Silva será definido por sua obra, mas, mais importante, pelo estilo com que essa obra é conduzida.
Fabinho Reis tem a clara consciência de que o projeto, embora criado por ele, não lhe pertence mais; "hoje é da comunidade," ele reconhece com humildade e satisfação. Esse desapego e essa visão de serviço público são as marcas de um verdadeiro líder comunitário.
Seu maior desejo é que o "estilo" de trabalho que ele implementou seja perene. Ele define esse estilo de forma simples, mas poderosa: "o meu estilo de amor, de determinação de carinho e de caridade também que é o que Jesus ensinou pra gente". É uma vida pautada por valores claros, onde a fé se traduz em ação concreta.
Fabinho Reis nutre a esperança de que esse legado de serviço e zelo seja abraçado por sua próxima geração. Ele expressa o desejo de que seus filhos possam "seguir os meus passos com esse mesmo amor, com esse mesmo carinho que eu tive até hoje".
Essa visão do futuro, que une a perenidade da obra (a sede própria) à perpetuação de valores (o amor e o zelo), solidifica a contribuição de Fabinho Reis para a Vila Marcondes. Sua história é um farol para Carapicuíba: a demonstração de que a determinação de uma única pessoa, quando aliada a raízes profundas e a uma filosofia de cuidado, é capaz de criar um legado que transcende gerações, iluminando o caminho de toda uma comunidade.
Ao olhar para trás, Fabinho reconhece que o caminho foi longo e difícil, mas repleto de milagres. “Se fosse fácil, não teria graça. Tudo que vem com esforço é abençoado.” E quando lhe perguntam qual é a lição que aprendeu em tantos anos de trabalho, ele responde com as palavras que herdou da mãe:
“A gente nunca paga o mal com o mal. A gente paga o mal com o bem.”
É com esse princípio que Fabinho Reis segue escrevendo uma história de fé, coragem e amor ao próximo — iluminando vidas, assim como seu avô iluminou a Vila Marcondes, décadas atrás.
(Acesse o Instagran: @sosbrasilmelhoroficial)
Reportagem de Plínio Marcos de Sousa e Silva
Sensação
Vento
Umidade





