Por: Tatiane Viana
Muito antes de administrar 20 centros de educação infantil e impactar a vida de milhares de crianças em São Paulo, Sueli Pontin da Silva era apenas uma menina observando o mundo ao seu redor. Criada em São Miguel Paulista, na Zona Leste da capital, ela cresceu em uma casa simples, onde não sobravam recursos, mas nunca faltaram afeto, respeito e solidariedade. Foi ali, entre os ensinamentos dos pais e a convivência com as irmãs, que aprendeu uma lição que carregaria por toda a vida: ninguém cresce sozinho. Enquanto muitas pessoas escolhem seguir em frente ignorando as dificuldades ao redor, Sueli desenvolveu o hábito de prestar atenção. Prestava atenção nas pessoas, nas histórias e, principalmente, nas necessidades que pareciam invisíveis para grande parte da sociedade.
Ainda jovem, começou a trabalhar para ajudar nas despesas da família e garantir os próprios estudos. O caminho nunca foi fácil. Entre jornadas de trabalho e salas de aula, acumulou conhecimento em diferentes áreas, passando pelo Direito, Pedagogia, Teologia, Direito Ambiental e formação em Auxiliar de Enfermagem. Mas, no fundo, ela buscava algo que nenhum diploma poderia oferecer: um propósito.
Com o passar dos anos, uma inquietação começou a crescer. Nas ruas da região onde vivia, via crianças convivendo com a vulnerabilidade social, famílias enfrentando dificuldades e oportunidades que simplesmente não chegavam para todos. A pergunta que passou a acompanhá-la era simples: se eu posso fazer alguma coisa, por que não fazer?
A resposta veio em 1994. Naquele ano, nasceu a SERCOM — Serviço Comunitário do Itaim Paulista.
O que começou como um sonho de lutar pelos direitos das crianças e adolescentes transformou-se em uma missão que atravessaria décadas. Não havia garantias de sucesso, nem estruturas prontas. Havia apenas uma convicção: toda criança merece crescer cercada de cuidado, proteção e oportunidades.
Os primeiros passos foram dados no CEI Recanto Feliz, no Jardim Helena. Era uma única unidade, cercada por desafios que pareciam maiores do que os recursos disponíveis. Mas Sueli aprendeu cedo que transformação social não acontece quando tudo está pronto; ela acontece justamente quando alguém decide começar apesar das dificuldades.
Vieram os problemas estruturais, as limitações financeiras, as equipes para formar, as resistências para enfrentar e as responsabilidades cada vez maiores. Vieram também os momentos em que o cansaço parecia falar mais alto e as ocasiões em que pensou em desistir. No entanto, bastava olhar para as crianças para reencontrar forças. Cada abraço espontâneo, cada sorriso conquistado e cada família que reencontrava esperança, renovavam sua certeza de que estava no caminho certo.
Ao longo dos anos, a SERCOM cresceu. Uma unidade virou duas, depois três, depois quatro, e continuou se expandindo até se tornar uma organização responsável por 20 Centros de Educação Infantil espalhados pela cidade de São Paulo.
Mas, para Sueli, o que realmente importa não são os prédios ou os números. O que permanece são as histórias: a criança que chegou tímida e aprendeu a acreditar em si mesma, a família que encontrou acolhimento em um momento de dificuldade, a mãe que recuperou a esperança e o pai que voltou a acreditar no futuro dos filhos. São essas memórias que ela guarda com mais carinho.
"Pequenas ações podem transformar vidas profundamente", costuma dizer. Talvez seja justamente essa a essência da sua trajetória.
Hoje, ao olhar para a caminhada iniciada há mais de três décadas, Sueli não mede sua trajetória pelas unidades administradas, pelos números alcançados ou pelo crescimento institucional da SERCOM. O que realmente a emociona são as histórias que encontrou pelo caminho: as crianças que chegaram inseguras e descobriram sua própria força, as famílias que reencontraram esperança em momentos difíceis e os vínculos construídos ao longo dos anos com a comunidade.
Entre os muitos desafios enfrentados, ela aprendeu que a transformação social raramente acontece de forma imediata. Ela se constrói aos poucos, no cotidiano, por meio da escuta, do cuidado e da presença. Talvez por isso, as lembranças que mais guarda não estejam ligadas a inaugurações ou conquistas institucionais, mas aos abraços espontâneos das crianças, à confiança das famílias e à certeza de que cada oportunidade oferecida pode mudar uma história.
Mais do que fundar uma organização, Sueli construiu uma missão de vida. E é essa missão que continua guiando seu trabalho: acreditar que toda criança merece crescer cercada de proteção, afeto e oportunidades, e que nenhuma transformação é pequena quando ela acontece na vida de alguém.
Sensação
Vento
Umidade





