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O que torna permanecer na escola uma escolha difícil?

Tatiane Viana

30/03/2026 19h44
Por: CAJU
Tatiane Viana
Tatiane Viana

No Brasil, a PNAD de 2024, do IBGE, demonstrou que o Brasil possui mais de 900mil jovens, de 4 a 17 anos, ausentes das escolas, com uma concentração significativamente maior no Ensino Médio. Esse número não se distribui de forma igualitária; pelo contrário, ele acompanha e evidencia desigualdades sociais, raciais e territoriais. Estudos demonstram que jovens de contexto mais vulneráveis enfrentam uma combinação de fatores críticos: baixa renda familiar, necessidade de trabalhar, menor acesso a instituições de qualidade e trajetórias escolares irregulares. Ou seja, a evasão não é uma decisão isolada, mas um padrão social.

O dado mais direto é também o mais revelador: 42% dos jovens que abandonaram a escola o fizeram para trabalhar. Entre os homens, esse índice chega a 53,7%. Aqui reside o ponto crítico: para muitos, a escola compete diretamente com a sobrevivência. Quando a renda da casa depende do jovem, a lógica se inverte: estudar torna-se um investimento de longo prazo, enquanto trabalhar é uma necessidade imediata. Em contexto de urgência, o curto prazo invariavelmente vence.

Além da questão econômica, há um fator silencioso: a perda de significado da escola. Diversos estudos apontam que os jovens abandonam os estudos porque não conseguem acompanhar o conteúdo, acumulam reprovações ou não veem conexão entre o que é ensinado e a vida real. Isso gera um efeito psicológico poderoso: quando o aluno não se sente capaz ou não percebe um propósito no aprendizado, permanecer deixa de fazer sentido. A evasão, nesse caso, não é uma rebeldia, mas uma desistência racional diante de um sistema sistema que não engaja.

A evasão escolar segue um padrão nítido: jovens mais pobres evadem mais, regiões com menos infraestrutura apresentam apresentam maiores índices e estudantes negros são mais afetados. Análises recentes reforçam que fatores como a distância da escola, a falta de transporte, a necessidade de geração de renda e as desigualdades raciais estão diretamente ligados ao abandono. Isso sustenta a ideia central a ideia central de que a evasão não é uma falha do aluno, mas uma falha do sistema.

Os motivos, contudo, não são universais. Enquanto para homens o trabalho é o principal fato, entre as mulheres a gravidez e as responsabilidades domésticas aparecem com mais força (32,1%). Isso revela que o abandono também está intrinsecamente ligado aos papéis sociais, à desigualdade de gênero e à sobrecarga invisível imposta aos jovens.

Um erro comum é acreditar que o abandono começa apenas no Ensino Médio. Na verdade, ele é o desfecho de um processo cumulativo de dificuldades de aprendizagem, repetências e defasagem idade-série. Quando um jovem chega ao Ensino Médio já atrasado, as chances de evasão aumentam drasticamente. Em outras palavras, o abandono é o último estágio de um longo processo de exclusão.

Na prática, o jovem realiza um cálculo racional entre as opções disponíveis:

Permanecer na escola: envolve um retorno incerto e futuro, conteúdos pouco ou nada conectados à realidade e uma frustração acumulada

Sair da escola: oferece renda imediata, trabalho com aplicação na prática e uma sensação de utilidade no curto prazo.

Diante desse cenário, a decisão deixa de ser um "erro"e passa a ser uma estratégia de sobrevivência. Afirmar que os jovens "não valorizam a educação" é simplificar um problema estrutural profundo. A verdade é mais desconfortável: a escola, como está organizada hoje, muitas vezes não consegue competir com a realidade desses jovens. Enquanto o estudo não gerar um retorno visível, o trabalho for urgente e a escola não fizer sentido, sair continuará, para muitos, a escolha mais lógica.

Referências

-IBGE / PNAD Contínua (2024–2025)

-UNESCO – dados globais de evasão

-Salata, A. (2019) – estudo sobre evasão no Brasil

-Instituto DACOR (2026) – análise estrutural da evasão

-Brasil Escola / InfoEscola – síntese de causas

Tatiane Viana

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