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Em Osasco, na Grande São Paulo, um projeto social vem mudando a realidade de centenas de
pessoas. A Associação Verbo Amar, fundada oficialmente em 2018, é fruto da inquietação e
trajetória pessoal de Sérgio Luís Gonçalves Ventura, um homem que se define como um agente de
transformação e inconformado com o sistema que não atende quem precisa. Sua vida, marcada por
desafios, liderança e fé, é também a base de uma instituição que hoje se tornou referência em
assistência social e inclusão digital. Sua vida é marcada por liderança, desafios e a busca por justiça
social. “Meu maior sonho é que a associação seja relevante no nosso território, na zona sul de
Osasco, com atendimento para a família inteira e, para tanto, buscamos recursos humanos e
sustentabilidade financeira para potencializar nossa atuação”, afirma Sérgio.
Sérgio nasceu e cresceu em Osasco, sempre estudou em escolas públicas e, como muitos de sua
geração, priorizou o trabalho cedo. Serviu ao Exército Brasileiro onde permaneceu por quase dez
anos. Ali aprendeu disciplina, responsabilidade e, principalmente, o valor de acolher jovens que
chegavam inseguros.
Depois do Exército, trabalhou em empresas de transporte de valores e na TV Cultura. Foi nessa
época que, incentivado pela esposa, voltou a estudar e concluiu o ensino médio, já adulto. Anos
mais tarde, decidiu realizar o sonho adiado de cursar uma faculdade e ingressou em Serviço Social,
concluído em plena pandemia, em uma colação de grau on-line que ele lembra como simbólica:
“Foi um marco, um rompimento de paradigmas familiares. Poucos na minha família tinham curso
superior. Eu precisava abrir esse caminho”.
A vocação para ajudar já se manifestava desde cedo, inspirada pelo exemplo do pai, que socorria
vizinhos a qualquer hora. Esse DNA solidário se somou à experiência religiosa. Como pastor,
Sérgio percebeu que a fé não bastava sem orientação prática: muitos fiéis desconheciam seus
direitos e políticas públicas já existentes.
Sérgio afirma que “Não é porque eu sou uma pessoa preta que eu tenho um histórico de
marginalidade”. Ele entendia que não queria passar como uma sombra na Terra. Deveria deixar um
legado para seus filhos e para a comunidade. Então se inseriu nessa luta pelas políticas públicas,
pela ação social e humanitária e pelo direcionamento das pessoas.
A casa virou abrigo, Igreja e depois projeto
O embrião da Verbo Amar surgiu no início dos anos 2000, quando Sérgio acolheu em sua casa uma
família em situação de extrema vulnerabilidade: pai dependente químico, mãe e quatro filhos em
risco. O gesto se transformou em reuniões semanais, depois em cultos na garagem. Em pouco
tempo, a inauguração reuniu mais de cem pessoas.
Mas Sérgio não se conformava em apenas reunir gente para orar. Ele caminhou pelas ruas do bairro,
realizou uma pesquisa social, conversou com vizinhos. Verificou que havia analfabetismo funcional,
jovens sem perspectiva, famílias sem acesso a benefícios como Bolsa Família ou Benefício de
Prestação Continuada (BPC). “Entendi que a missão não estava só dentro das quatro paredes, mas
na comunidade”, lembra.
Foi assim que, em 2011, nasceu o Projeto Verbo Amar. Em 2018, uma assembleia com apoiadores
decidiu formalizar a iniciativa como associação, com CNPJ e diretoria.
A Pandemia em 2020 trouxe incertezas, mas também clareza. Demitido do emprego como gestor de
segurança patrimonial, diabético e em risco de saúde, Sérgio viu no desemprego uma oportunidade
de dedicar-se integralmente à missão. “Eu pedi a Deus que não me deixasse morrer ‘bestamente’,
porque havia algo maior para fazer”, recorda.
Foi nesse período que a Verbo Amar estruturou o projeto de inclusão digital em parceria com a
Secretaria Municipal do Trabalho. O espaço, equipado com computadores e instrutores, oferece
cursos gratuitos de informática e oficinas de capacitação. Hoje, turmas funcionam em três turnos,
atendendo crianças, adolescentes, adultos e idosos. As principais ações da Associação Verbo Amar
são o combate ao analfabetismo funcional e digital, utilizando a informática como ferramenta de
inclusão social, através do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, ofertando oficinas
de informática para todas as faixas etárias a partir dos 7 anos de idade.
Mais de mil pessoas já foram impactadas diretamente pelas atividades da associação. O banco de
dados da instituição registra nome, endereço e histórico de cada atendido. O trabalho é organizado
em ciclos quadrimestrais, com planos individuais de desenvolvimento.
Histórias que inspiram e desafiam
Alguns casos se destacam. Um adolescente, que enfrentava dificuldades em leitura e matemática,
recebeu reforço no projeto e conseguiu aprovação em testes seletivos, tornando-se aluno do Colégio
Bradesco. Um jovem de 19 anos, PCD com problemas de saúde e superproteção familiar, conseguiu
seu primeiro emprego no McDonald’s, vaga de PCD (pessoa com deficiência), após curso e
mentoria de empregabilidade. “Ele saiu da bolha em que vivia. Hoje sonha com autonomia, ainda
que a família continue cautelosa e não quer mais ocupar a vaga de PCD”, conta Sérgio.
Há também histórias dolorosas. Um jovem de 22 anos, acompanhado no projeto, desapareceu de
repente. Sérgio soube depois que ele havia sido preso. “São escolhas. Nosso papel é orientar, mas
cada um escreve sua própria história. Mesmo assim, não desistimos dele. Ainda vamos visitá-lo”,
afirma.
A terceira idade também encontrou espaço. Antônio, 70 anos, que ficou viúvo recentemente,
encontrou na digitação uma nova razão para viver. A atividade ajudou a prevenir sintomas de
depressão e até do Alzheimer. Inspirado por ele, a Verbo Amar prepara turmas específicas para
idosos, com atividades de informática, convivência e fortalecimento de vínculos.
O papel transformador do Instituto Caju
Uma virada crucial para a Verbo Amar foi a parceria com o Instituto Caju, organização que apoia
entidades do terceiro setor. Para Sérgio, o Caju foi como uma universidade. “Eles não apenas
apontam o caminho, mas caminham junto”, afirma.
O Instituto ofereceu assessoria para gestão, orientação sobre editais e ensinou a prestar contas
corretamente. Isso deu à Verbo Amar maturidade para se inserir nos conselhos municipais de
assistência social e de direitos da criança e do adolescente, ampliando legitimidade e acesso a
políticas públicas.
“Antes, éramos vistos como um grupo de voluntários. Hoje, somos uma instituição de assistência
social, com identidade clara, missão definida e atuação alinhada às políticas públicas”, explica
Sérgio.
Desafios de todos os dias
Manter a associação exige esforço constante. O espaço funciona em regime de comodato — se
houvesse aluguel, já teria fechado, afirma Sérgio. O próximo passo é fortalecer a atuação junto ao
governo estadual e federal, ampliar a estrutura para atender mais pessoas e consolidar projetos
voltados à terceira idade. A meta é que a Verbo Amar seja cada vez mais reconhecida como uma
instituição de referência em educação comunitária, inclusão digital e cidadania.
Missão e Propósito
“O que a gente quer é ser uma instituição que não faça assistencialismo, mas assistência social de
verdade”, afirma Sérgio. Isso significa buscar capacitar a comunidade, orientar para o acesso aos
direitos e fortalecer os vínculos sociais. A associação atua como ponte entre os cidadãos e as
políticas públicas, e trabalha diariamente para garantir que seu propósito permaneça claro e
presente: transformar o território onde vivem, com foco em educação, emprego e qualidade de vida
Uma mensagem de inspiração
Para quem deseja trilhar o mesmo caminho, Sérgio deixa uma lição: persistência. “Não desista da
sua missão. Aprenda como fazer e foque no propósito da sua instituição.”
Movido pela fé e pelo humanismo, ele acredita que cada gesto é importante. “Nosso projeto não
entrega benefícios, entrega conhecimento para a transformação. O pouco que temos — nosso tempo
e disposição — ofertamos com amor. Isso faz a diferença.”
Da garagem de uma casa à formalização de uma associação reconhecida pela comunidade, a
história da Verbo Amar mostra que a solidariedade, quando aliada à organização e ao conhecimento,
é capaz de transformar destinos e apontar caminhos em meio às dificuldades enfrentadas por uma
parcela menos favorecida da sociedade.
Redes sociais: @avaspassociacaoverboamar
Reportagem de Plínio Marcos de Sousa e Silva
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